Feminismo: poder de escolha e libertação

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"Seja Livre". Marcha das Vadias de Belo Horizonte 2013. (c) Foto: Maria Objetiva no Flickr CC

Recentemente, durante uma conversa com um colega ele me abordou:
- Então você é feminista? – me perguntou com ar de incredulidade. Fiz que sim com a cabeça.
- Mas você não odeia os homens, você tem namorado e só tem amigos homens! – Assenti novamente. – E você usa maquiagem. Tem apenas 17 anos. Sequer formou no ensino médio!

Fiz uma pausa tentando assimilar suas falas e então o indaguei com um “e daí?”. E ele disse apenas que eu não era feminista, mas sim feminina. Me calei novamente me perguntando qual o problema de ser uma feminista feminina.

- Não tente me dizer como ser feminista – o adverti colocando fim no assunto e ele apenas sorriu de lado com deboche.

O problema não está em ser feminista, mas sim em como (infelizmente) alguns veem isso. “Você não pode ser feminista usando sutiã, maquiagem e ter apatia por homens”, disseram-me certa vez e eu respondi com um gesto obsceno. Até quando estereótipos? Subentende-se, e eu acredito que, o movimento, a ideologia, a filosofia ou o que esteja baseado no feminismo tem como objetivo alcançar o direito de igualdade dos sexos entre homens e mulheres no cenário político e social. Ou seja, mesmo padrão de salários, trabalhos, direitos, deveres, responsabilidades, penalidades, etc.

Não tente sustentar a falácia batida de que a mulher é um sexo frágil. Não, por favor! Sem hipocrisias... De fato, há sim diferenças biológicas entre homem e mulher, mas isso não limita a capacidade dos mesmos de cumprir com seus papéis sociais. Homens e mulheres podem exercer seus gêneros como bem entenderem e serem tratados igualitariamente. Essa é a dádiva do feminismo: poder de escolha e libertação das vítimas da dominação masculina.


(c) imagem

Poder de escolha na área profissional sem estereótipos de que certos trabalhos são de homem ou mulher: qualquer um pode ingressar na construção civil (mesmo mulheres) ou em qualquer outra área. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), entre 2007 e 2009 a contratação de profissionais do sexo feminino deu um salto de 44,5% no país, o que significa que as mulheres estão quebrando aquele velho tabu de que “seu dever é ficar em casa cuidando dos filhos, do maridão e da casa”.  Claro que isso pode ocorrer, mas desde que a mulher opte por ser uma dona de casa, se dedicar aos filhos e tal. Claro que o mesmo vale para os homens: opção de ingressar em qualquer carreira ou opção de ser dono de casa. Vide a luta pelo direito de licença-paternidade no Brasil.

Se antes mulheres não podiam mostrar o corpo ou até mesmo usar branco à noite porque eram desvalorizadas, desmoralizadas ou porque estavam “pedindo por estupro”, depois do feminismo a história é outra. Mostrar ou não o corpo vira questão de escolha assim como a prostituição (exceto àquelas que não têm opção quanto à venda de seus corpos).  Independente da escolha é preciso respeitá-la. Qualquer mulher; pessoa; vida deve ser respeitada.

Cada um (a) à sua maneira acredita num tipo de feminismo e temos que ter cuidado com isso. Agora mais do que nunca temos que nos unir ao invés de nossas próprias ideologias pelo mesmo movimento nos separar. Eu acredito num feminismo que expresse liberdade ao invés de restringir. O feminismo não precisa (e nem deve) estar associado ao ódio, a raiva, dentre outros estereótipos como não poder usar sutiã. Aliás, a queima de sutiãs na década de 60 simplesmente simboliza o fim do que prende e restringe as mulheres.

Acredito num feminismo acolhedor, onde podemos estar de maquiagem ou cara limpa, de saia ou calça, de salto ou tênis. Acredito num feminismo onde há igualdade de salários entre os sexos, que haja igualdade na cobrança de entradas nas boates; num feminismo onde a mulher pode decidir quantos filhos ter, em quem votar, que roupa usar... Num feminismo que te dá o poder de escolha, que lute contra o machismo, a homofobia, o racismo, onde há respeito acima de tudo.


6 comentários

  1. Ok, vou publicar meu comentário em dois senão não cabe...ashaush
    Conheço pessoas q fazem uma associação errônea do feminismo,julgando-o como o contrário do machismo e pensa q o feminismo quer a dominação dos homens pelas mulheres ou q prega uma cultura de ódio ao gênero masculino.Mas o feminismo não é isto, mas sim movimento q busca a igualdade,e a partir da luta de muitas mulheres é q garotas como eu e você temos a oportunidade de nos expressar sem sermos condenadas á morte ou apedrejadas em praça pública.Mas agora me pergunto pq tanta gnt faz essa associação errada? A resposta é que dentre tantos fatores eu vejo que a luta feminista está bastante banalizada, deixando claro que é só minha opínião,tá?!Não menosprezo a luta e as conquistas alcançadas até hoje,mas há coisas no feminismo atual q me desanima como a grande quantidade de mulheres q se diz feministas e não tem nenhum conhecimento ou fundamento crítico do pq estão lutando,e olha q não estou falando nem da leitura essencial de grandes obras acerca desse movimento,estou falando de coisas rotineiras por exemplo na minha cidade teve uma marcha das vadias e perguntei para algumas das participantes qual a causa que as levaram até aquele lugar,elas não souberam responder,estavam ali apenas "seguindo o comboio",e achavam legal parecer entusiastas de algumas causa,agora imagina q pensamentos como os delas está inserindo em todas as esferas da luta feminista.Também é importante ver outros lados como mulheres q se dizem anti-feministas,o q pra mim é tiro no cérebro,se não fosse pela luta de tantas mulheres elas sequer teriam o direito de opinar.E há também há o lado de alguns homens que a partir do momento que ouvem a palavra feminismo ativam um botão de repulsa e estereotipam as mulheres que participam deste movimento.E há aquelas que acham que o feminismo é a deterioração do respeito próprio,uma vez ouvi uma afirmação de uma garota dita feminista da escola q me soltou essa:"o homem pode trair, ter vários companheiras,voltar bêbado pra casa,as mulheres tem q ter o mesmo direito".Agora me pergunto,pq ela e tantas outras querem apenas rivalizar com coisas vis,e porque não,sórdidas q os homens fazem?.Cada um tem que ter o direito sobre o próprio corpo,ok. Mas porque algumas insistem em trazer para si lutas tão mesquinhas?

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    1. Vou ser sincera Mell, há pessoas ditas feministas (principalmente mulheres) que pensam que o feminismo tem que ser a supremacia feminina, ou seja, nada de igualdade, mas sim mulheres no controle de tudo. A linha de raciocínio desse grupo é que quando se diz que a mulher tem que ter os mesmos direitos que os homens, elas querem se igualar a eles. Até aí tudo bem. Mas segundo essas feministas, isso só é válido para mulheres brancas, cis, hétero, classe média que querem se igualar a homens brancos, cis, hétero, classe média. Ou seja, a questão de igualdade para elas é inválida porque “nem toda mulher está no mesmo patamar de opressão bem como nem todo homem está no mesmo patamar de privilégios”. Bem, esse é um daqueles casos que tem que ser bem analisado. Pois, se houvesse a supremacia feminina, teríamos homens criando o “machinismo”. Só estou querendo dizer que nesse caso há apenas a inversão de opressor e oprimido. Sou daquelas feministas que pensa que o feminismo é sim sobre igualdade. Igualdade é igualdade (seja de salário, direito, dever, respeito, etc). A palavra por si só já deixa claro que não há exceção de nada e nem ninguém. Para o feminismo não importa se fulano é pobre ou rico, verde ou azul. O feminismo deixa nítido que esses detalhes são indiferentes, pois o objetivo é que ambos e todos sejam tratados de forma igualitária com o devido respeito e valor.

      O feminismo é um leque que ao abrir, veremos que cada mulher/grupo pretende a obtenção de um direito/status que foge da questão real de igualdade. Ressalto mais uma vez que devemos ter cuidado com isso para não repartir um movimento tão importante, principalmente p/ todas as mulheres.

      Confesso Mell, que também não vejo sentido na disputa com homens sobre quantos “pegou na balada”. Isso me soa como futilidade. Uma vez que faz parecer que homens/mulheres são mercadorias objetificadas. Mas se uma pessoa escolhe viver assim, tudo bem, e se foi sua escolha devemos respeitar. Agora se uma mulher é chamada de “vadia” porque “pegou” x homens, enquanto o homem é taxado de “garanhão” por ter “ficado” com x mulheres, aí minha cara, a história é completamente diferente. Ninguém tem nada haver com a vida de ninguém.

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  2. Mas também tem coisas incríveis como há alguns meses vi um discurso de uma mulher q falava sobre a violência contra as mulheres no islamismo e ela falava com tanta convicção e com tanta vontade de ajudar àquela causa que eu pensei q aquela sim,era uma verdadeira feminista,e q se fosse pra lutar dessa forma inteligente,eu acho q a luta seria bem mais benéfica e ouvida. O choque de tirar a roupa para ser ouvida acabou,acho mais válido usar o cérebro.Não me veja como moralista,simplesmente não acho que nesse momento uma marcha de mulheres nuas andando pelas ruas vai diminuir a agressão contra as mulheres,ou que vai trazer qualquer tipo de igualdade que é o que o movimento propõe,essas táticas são pára chocar e fazer a sociedade visualizar a luta,mas depois disso é necessário mostrar as cartas,algum tipo de pensamento e embasamento inteligente,coeso q justifique os objetivos que nós mulheres estamos buscando.Falta tanta coisa que eu queria dizer acerca dos meus pensamentos sobre o feminismo,da qual me considero simpatizante,não digo que sou feminista ainda,tenho muito do que me aprofundar nisto, pq o feminismo pra mim é bem mais do que ficar aqui na frente do meu pc avaliando as lutas que acontecem na rua,ou estar na rua,sem ter nada na mente.Se alguma coisa do meu pensamento ficou meio confuso pode perguntar,pq já são quase 1 hora e estou meio que divagando e posso ter escrito algo sem sentido ou com erros de concordâncias,kkk mas tirei esse momento só pra comentar no teu blog, pq é tão difícil ver um post em blogs que fuja desses temas comuns e que me estimule a escrever e que além disso aceite meus comentários gigantes,haha! Menina,adoro esse espaço e só não tenho visitado muito pela falta de tempo mesmo.Abraços Adeísa!Dá uma olhada num vídeo dessa mulher Ayaan Hirsi Ali,caso não conheça,ela é bem interessante.

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    1. Ao meu ver, as marchas de mulheres nuas propõe aquela questão de "não importa se estou pelada ou como me visto. O corpo é meu e você tem apenas que ficar na sua e respeitar porque não estou pedindo pra ser estuprada ou abusada moralmente". Essa é apenas a minha visão romântica dos fatos, pois acredito que temos que nos unir nessa causa. Mas a "marcha das vadias" é algo que ainda é muito criticado até pelas feministas.

      Mell, que fantástico encontrar alguém que admire também a Ayann! Ela é uma guerreira nata. Se libertar da opressão que ela vivia na cultura muçulmana, ser rejeitada pelos pais e ainda ter forças para lutar pela liberdade de outras mulheres, cara, isso é pra poucos (:

      Muitíssimo obrigada Mell!!!!
      Abraços <3

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  3. A questão sempre jaz no diálogo. Até que ponto o feminismo pode ser considerado uma ideologia e em que ponto ele se torna uma verdade absoluta. Já me encontrei com algumas chamadas "radfems" que eram simplesmente tão fechadas para o mundo quanto qualquer machista/pessoa de direita.

    Pessoas assim ignoram direitos básicos como religião: caso daquelas que são contra o islamismo ou o cristianismo como se a religião em si fosse opressora; trabalho: algumas acham que mulheres donas de casa são 'colaboradoras do sistema', mas se esquecem de que a própria atividade doméstica pode (e deve) ser considerada um tipo de trabalho; fora é claro, a clássica discussão sobre conduta moral (nem todas feministas são a favor da prostituição ou transsexualidade, por exemplo).

    A minha pergunta é: como negociar com essas pessoas? Como conversar e resolver nossas diferenças a ponto de criar um movimento sólido, como fazê-las entender que é possível discordar sem brigar? Eu não tenho essas respostas e acho que ninguém tem.

    Ademais, concordo em vários pontos com a Mell R. ali em cima. E acho que todxs nós concordamos com a ideia do chamado "feminismo interseccional", uma forma de luta que abraça todas as minorias, não apenas os direitos das mulheres :)

    Ótimo texto, Adeisa! Objetivo, conciso e sem encher linguiça, com uma linguagem clara e ainda sim que aproxima o leitor e incentiva a discussão!

    Abraços

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    1. Pois bem Lu, você levantou uma questão séria. As radfems, como você citou como exemplo, e as transfems são complicadíssimas de se lidar, uma vez que elas são extremamente radicais (não aceitam que trans/cis possam ser feministas já que a natureza determinou que são XY (homens), usam de violência para tornarem seus argumentos válidos e criam divergências dentre as próprias feministas). E olha que esses grupos representam a minoria!

      Realmente o feminismo está seccionado, muitas pessoas com exigências diferentes. A princípio, acredito que devemos lutar pelas mulheres oprimidas culturalmente e moralmente (como as muçulmanas, as negras, as islâmicas). Lutar por aquelas que são fadadas a casar desde jovens sem poder optar por isso, obedecer ao marido como se isso não devesse ser recíproco, aquelas que são injustiçadas por não poderem escolher com quem se relacionarão, qual gênero ser, aquelas que são injustiçadas pela desigualdade social (classe, salário, deveres, direitos...).

      Muito obrigada Lu! Muito importante vc por aqui!
      Abraços!!!

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