E foi procurando te encontrar que me perdi


Coleciono tentativas frustrantes sobre nós dois. São fotos nunca captadas, mas emoldurei-as nas paredes da minha imaginação. São flores que nem me deste, mas prensei-as entre as páginas do meu romance favorito. São bilhetes de viagens que nunca arquitetamos dentre cartões do dia dos namorados jamais enviados, receitas especiais para dois que anotei sem sequer saber cozinhar e listas de filmes para assistirmos em dias frios, mas estamos no verão.

Virei pintora de mim mesmo. Meus olhos têm cor de insônia. A pele abriga tons de relutância. E entre meus lábios se encontra a pintura mais triste em preto degradê, são as sombras do que um dia já foi sorriso provocado por ti.

Minhas mãos, dias passados eram cartográficas mapeando as curvas do teu corpo sobre o meu. Hoje, sem norte, apenas vagam os lençóis enquanto tecem essa dolorosa saudade.

Fingi ser equilibrista andando nesta corda bamba para chegar até a ti. Fiz-me alpinista a fim de escalar tuas muralhas. Aprendi a lutar para enfrentar teus medos e simultaneamente submergi nos meus. E não havia quem pudesse me proteger deles.

Mudei de endereço, a cor do ruge, os amigos, os costumes, a rotina...

Nesse espelho, do outro lado, não pode ser minha imagem sendo refletida. Não me reconheço mais. Onde começo e termino? Ela me fita. Acompanha meus movimentos. Mas não sou eu. Sequer estou aqui! Estou mais distante que seu olhar vazio. Naufragada em minhas próprias correntezas que conduzem o que fui. Ou ainda sou. Posso vir a ser. Ou fingi. E finjo.

Estou camuflada às minhas idiotices, nos teus vacilos, nas recordações, nas tuas miragens. Oscilando entre realidade e ficção. Tua, minha e nossa. Incapaz de atribuir referências ao acaso ou a fatalidade, nem tu és (capaz ou real).

Pobre de mim perdida de ti em ti mesmo!
Em nós. Neste paradoxo.
Em mim mesmo, perdida de mim.
Sobretudo, em minhas (falsas) expectativas.

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