Fazer escolhas é uma arte

Fazer escolhas é uma arte

Estilo pertencente àqueles que se desfizeram do sangue nas veias para inativar os sentimentos. De quem sabe ser general de guerra, calculista, frio e vidente. De quem é audacioso o suficiente para desafiar o tear do destino. É para aqueles que estão sempre em busca de uma nova aventura, para quem não teme uma descarga do simpático com altas doses de epinefrina sobre o miocárdio.

Fazer escolhas é estar num campo minado onde um pequenino passo em falso resulta na explosão duma bomba atômica paradoxal. Há de ser levado em conta fatores que por vezes fogem o domínio. Por mais que arquitete minuciosamente como atingir seu alvo, sempre fica um tijolo de fora que é lembrado apenas quando o prédio está ameaçando desabar. Efeito dominó em cascata de dor no qual você não é o único acometido pelas consequências do seu erro.

Fiz minhas escolhas. Umas bem feitas, já outras, nem tanto. Resolvi trilhar meu próprio caminho. Eu por mim mesmo. Vovó me abençoou enquanto mãezinha colocava as malas no bagageiro. O relógio mental despertou – hora de conquistar meu próprio território. Meti o pé na estrada. E desde então, minha vida tem sido idas sem vindas.

Sempre planejei minhas partidas antes mesmo de chegar ao porto. Considerava-me do mundo, sem alguém que pudesse ser meu dono, sem um lugar capaz de me prender. Presa somente em minhas escolhas. Por mais que doesse, não importava, eu tinha que partir. Dediquei meu amor exclusivamente a esse espírito andarilho, embora houvesse bons motivos para eu permanecer onde estivesse. Logo eu, que nunca precisei de muito para desfrutar de estados de magnitude.

Das casualidades da vida, te encontrei no meio de uma tempestade e te usei como abrigo. “Será temporário” – jurei a mim mesmo. Tão logo me vi fazendo morada nos seus sonhos. Deixei minhas raízes crescerem sobre as suas. Esperei pacientemente pelos frutos. Mas quando se planta ilusão, torna-se impossível colher algo que preste (como me prestei a isso?).

Agora estou do outro lado da fronteira. Em minha epiderme arde o peso da partida de alguém. Sequer posso pedir para que fique. Nem um pouco mais. Afinal, quem sou eu para pedir alguma coisa? Quem sou eu quando sua sentença já foi deliberada? Quando suas escolhas não me incluem. Por escolha sua. Não tenho escolha. Já me foi dada. Os dados foram jogados. Volto quatro casas e você anda um milhão de milhas.

Ficar sem escolhas é efeito agonista da solidão. É estar de mãos atadas ainda que não haja algemas (as grades são miragens na cabeça articulando o pessimismo). É ser obrigado a retirar o time de campo ainda que o placar esteja ao seu favor. É ter somente a escolha de voltar para a estaca zero e assim, talvez, poder ter outras alternativas. É se submeter às mesmas dúvidas de antes somado ao peso nas costas da responsabilidade de passar por tudo outra vez com maestria impecável.

Não ter escolhas é para aqueles que não gostam de assumir o controle. Que são levados pelo vento e modelados por mãos alheias. É para quem sabe ver o positivo no negativo, para aqueles que aceitam facilmente as mudanças e simplesmente entram na dança. A ausência de escolha é uma arte. É para aqueles que são criativos natos. Para quem sabe se reinventar e enxergar beleza mesmo no fundo do poço.

Quisera eu ser artista. Gato de rua jamais será tão perspicaz quanto leão na selva. Rimas pobres nunca escreverão uma poesia.

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