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A vida deve continuar

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Você sabe, nunca fui boa em refletir nos dizeres aquilo que sinto dentro de mim. Sou um tanto desajeitada e intensa, atropelo as pontuações e por vezes meu sujeito não conjuga os verbos no tempo da ação.

Aquele dia, porém, por trás daquela camada de alegria havia uma insegurança retida no seu olhar. Gelei. Meu ego estava tão acondicionado a ser sempre o ferido que busca conforto em seu colo. Ver-te vulnerável me desestabilizou por completo. A sua luta não podia ser enfrentada por ninguém mais a não ser você mesma.

Entretanto, fui para o campo de batalha enfrentar o inimigo assim como você fez tantas outras vezes por mim sem sequer cogitar o contrário.  E pela primeira vez eu saí da minha cápsula de protegida para tentar fazer algo por ti. 

Não sabia exatamente o que poderia fazer ou por onde começar, só queria de alguma forma que soubesse que foi contigo que aprendi conceitos que dicionários jamais poderiam ilustrar e que eu faria o impossível para retribuir toda devoção e carinho que teve comigo, embora o que eu fizesse jamais se compararia a grandeza das suas atitudes.

Segurei suas mãos entre as minhas, olhei seus olhos baixos e com convicção disse que te amava. Sem delongas ou outros adjetivos que pudessem florir a fala mesmo que o sentimento mais puro e lindo estivesse ali no peito. Disse assim, cruamente. Você assentiu humildemente tendo plena certeza que minha mensagem extravasava os limites silábicos. E eu entendi que por mais fraca que você estivesse jamais deixaria de me proteger.

Ah, minha querida se eu soubesse que aquele nosso abraço seria o último, não teria te deixado nunca... Congelaria o tempo nos nossos momentos mais felizes. E são diversos que sequer dou conta de discernir o superlativo. Ainda na doença ou tristeza, jamais deu vez para o pior se instalar. Com maestria e um sorriso no rosto você conduziu a situação. Aqui consigo te destacar como meu maior exemplo de superação. Por mais que eu tentasse seguir seus passos, era nítido que eu nunca poderia ser como você. Tão forte, corajosa, brava e, simultaneamente, o sinônimo de amor, doçura e carinho.

Eu procuro forças nos ensinamentos que me deste. Tento encarar o futuro de cabeça erguida, mas só de imaginar que você não está nele um medo me assola. É como naquelas noites de trovoadas em que eu me refugiava em sua cama. Só que você não está lá mais pra me aquecer. É como aquele nervosismo no estômago antes de subir ao palco e procurar seu olhar na platéia para me tranquilizar. Só que ao redor não vejo semblantes como os seus. Ou aquela paz de após um dia horrível chegar em casa e ter aquela sensação de que ao seu lado, nada pode me abalar. Mas você não está em casa.

Eu percorro os cômodos, toco em seus objetos, sinto seu cheiro... mas não sinto a sua presença. Nada além dessa sensação de abandono e vazio, de que há um abismo gigantesco que me impossibilita de te encontrar. É horrível sentir outras mãos me segurando e não sentir mais o seu toque. É difícil dormir sabendo que nunca mais vou acordar com você chamando meu nome. Péssimo ainda é acordar e ter que lidar com o fato de que isso tudo não é apenas um pesadelo.

É irônico porque você dizia que agora eu já sou crescida. Mas sinto que ainda sou aquela criança que durante suas viagens te ligava a todo o momento perguntando se já estava prestes a voltar mesmo sabendo que a resposta seria negativa. Sinto aquele desespero me tirando o ar e sequer posso usar o consolo de que dentro de mais alguns dias te verei novamente. Dessa vez foi uma viagem sem volta e nos despedimos com um “até breve”.

Reviro minhas memórias buscando um momento de fúria que tivemos para tentar amenizar essa dor. Mas até nossos desentendimentos se transformavam em piadas posteriormente. Sua expressão debochada remedando meu mau humor e sua risada contagiante sobressaem qualquer pensamento ruim que eu tente imaginar sobre você.

Meu coração fica minúsculo quando começo a desdenhar desfechos diferentes deste. E por mais que eu saiba que fiz tudo que minha capacidade permitiu, ainda, sim, uma sombra de dúvida paira em meus raciocínios. Se eu tivesse a chance de me desculpar contigo por não ter te obedecido, pelas vezes que menti, por não ter demonstrado mais todo esse amor e admiração que sinto...

O que não cabe em mim é a saudade. Ela é imensa e meu corpo já não a sustenta mais. Os momentos que tivemos foram ímpares. Se eu pudesse reviver cada lembrança, não alteraria nada. Deixaria intacto e conservaria em âmbar. Sempre, para todo e eterno sempre, vou ser grata por ter me amado incondicionalmente, por ter acreditado em mim quando nem eu o fiz, por ter sentido orgulho das coisas que fiz e da pessoa que me tornei. E mesmo sabendo que nunca serei nem um terço do que foste me sinto honrada quando evidenciam nossas semelhanças.

Diversas vezes você me preparou para sua partida, entretanto é inevitável não sentir essa inconformidade, essa angústia ao ver outras pessoas se apoderando do que era tão seu, de ter que ouvir semânticas que sei que jamais disseste, mas insistem em atribuir a você.

A vida deve continuar. De alguma forma. Estou tentando me fazer forte como você para reinventar a minha rotina sem o seu aconchego, seu carinho e seus conselhos. Estou tentando deixar essa dor ir embora para que quando eu pensar em você nenhuma lágrima de tristeza caia, para que eu sinta somente aquela sensação de que sou feliz e abençoada por ter te conhecido.

Não ouso me despedir, assim como você não fez da última vez que nos encontramos. Despedidas não fazem nosso tipo, principalmente quando existe essa conexão que há entre a gente. Vou te amar para sempre!

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